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quinta-feira, 30 de outubro de 2008

O gatinho

O gatinho acordou um dia e estava sozinho. A mãe desaparecera, e a meia dúzia de irmãos também... talvez alguém os tenha apanhado e colocado num balde de água para os afogar, como é costume na vizinhança fazerem aos gatinhos nascidos de pais vadios, numa tentativa de acabar com a gataria na zona.
O problema é que ele estava cheio de frio e de fome. Começou a miar e a procurar a mãe por todo o lado mas não a encontrou. Foi procurar comida, guiado pelo olfato, mas as tampas dos contentores de lixo, que o seu pequeno tamanho não impediu de trepar, estavam bem fechadas e a refeição tornou-se impossível.
Chegou a noite. O vento foi vencido por um abrigo debaixo da escada de uma vivenda, mas o frio e atravessava a pelagem ainda fina e fazia doer os ossos. Não dormiu nada. A fome dava-lhe dores de barriga.
O dia seguinte passou-o na mesma busca. Nem mãe, nem comida. Instintivamente ele sabia que morreria se não encontrasse uma solução para a sua vida. Chegou a noite e a fome apertava mais que nunca.
Então reparou que por cima da escada onde tinha passado uma noite e se preparava para passar a segunda havia uma porta de vidro e de lá de dentro vinha um aroma delicioso, acompanhado de vozes de crianças a brincar e a rir. A esperança acendeu-lhe a alma e correu para a porta. Lá dentro uma família jantava e ria no quentinho de uma lareira acesa. 
O gatinho então desatou a miar com quanta força tinha. Sabia que se pudesse entrar ali estaria salvo. Miou, miou, miou. A certa altura a porta abriu-se e o pai daquela família gritou: "sai daqui vadio!". e deu-lhe um pontapé que o atirou para o outro lado da rua.
Aquilo doeu. Doeu tanto como dói a única oportunidade perdida de vez, por causa das acções ou opiniões de outros. O gatinho da história voltou para debaixo da escada e passou outra noite sem dormir e sem comer. Quando amanheceu estava muito fraquinho. O estômago doía-he muito e o frio não o deixava parar de tremer. Ele sabia que iria morrer em breve.
Quando chegou a noite de novo,  o desespero levou-o outra vez à porta de vidro. Lembrava-se bem do pontapé da véspera, mas a fome e o frio, e a visão da lareira e da mesa farta deram-lhe coragem. Colocou-se com o narizinho junto ao vidro, a olhar lá para dentro e desatou a miar, miar e miar. 
Passado um ou dois minutos a porta abriu-se e o pai gritou: "Outra vez aqui? Vai-te embora!" E atirou-lhe um pontapé ainda mais forte que o primeiro. O gatinho voou e caíu sobre uma pedras amontoadas do outro lado da estrada. 
Muito desanimado enrolou-se debaixo da escada e enquanto tremia de frio preparou-se para morrer. No dia seguinte o sol apareceu. O gatinho tinha adormecido e abriu os olhos. viu o sol e deslizou de debaixo da escada para se aquecer um pouco. Estava tão fraco que mal podia caminhar. Tentou ir em busca de comida, mas estava demasiado cansado. Sabia que não sobreviveria outra noite ao relento.

Quando chegou a noite, debaixo da escada, pensava nos meninos dentro de casa, no aroma da comida e no calor da lareira, e pensava em ir de novo miar ao pé da porta. Mas vinham-lhe de novo à memória os gritos do pai e os pontapés. "Deixa estar. Estás aqui bem.", decidia então.  A barriga já não lhe doía, e até o frio parecia coisa normal, estava anestesiado pela proximidade da morte e sentia-se confortável.

Então, do fundo dos seus instintos, veio-lhe uma energia inesperada, sem querer saber dos pontapés, ou das opiniões do pai ou de quem quer que fosse, e sem pensar sequer se teria sucesso ou não, arrastou-se escada acima e foi-se colocar mesmo em frente à porta a olhar lá para dentro enquanto as crianças brincavam. Só conseguia miar muito baixinho, mas com as garras conseguiu arranhar a porta. A cada miado e a cada arranhadela estava a preparar-se para o pontapé que ele sabia ser o último mas nunca desistiu. Então a porta abriu-se e uma menina gritou "olha que gatinho tão lindo!" Os irmãos vieram a correr e levaram-no para dentro.

O que o gatinho não sabia é que os pais tinham saído nessa noite para ir ao cinema e as crianças queriam tanto um gatinho que os pais já estavam cansados de os ouvir. Quando chegaram a casa não tiveram coragem de dizer não às crianças e hoje aquele gatinho é um grande gato.

Tudo porque decidiu lutar só mais um dia.


sexta-feira, 17 de outubro de 2008

A Cenoura o Ovo e o Café

Uma amiga minha, cujo pai é cozinheiro, sabe que eu gosto de avaliar as circunstâncias e aprender com todas as coisas. Vem muitas vezes ter comigo para conselho e uma das últimas, há cerca de um mês, veio queixar-se da vida que levava, como tudo era tão difícil. E tinha razão, parece haver pessoas com tudo facilitado a quem tudo de bom acontece sem esforço. Mas a ela acontecia o contrário. Mal tinha acabado de resolver um problema, aparecia outro ainda maior. Quando uma oportunidade surgia, logo algo tinha de acontecer para estragar tudo. Separou-se do marido num divórcio feio, estava a pontos de perder a casa para o banco porque não podia pagar o empréstimo, a filha mais velha não parava em casa e andava com companhias pouco recomendáveis, o patrão iria despedi-la em breve porque tinha arranjado uma máquina nova que poupava 25 postos de trabalho, tinham-lhe descoberto há menos um mês uma úlcera em risco de rebentar. Enfim, estava cansada de lutar contra as circunstâncias, mas tudo à volta conspirava para lhe atrapalhar a vida. 

Na altura, eu, estudioso da natureza humana, aconselhei-a a ter confiança e a não desistir, dei-lhe força e ânimo para continuar a lutar. A coisa funcionou... por alguns dias. Ela animou-se um pouco, mas por pouco tempo, rapidamente as sombras e o desânimo a consquistaram de novo.

Ontem veio falar comigo, completamente transformada. Mal a reconhecia, vinha muito arranjada, cabelo bonito, rosto maquilhado e um sorriso que começava nos olhos. Fiquei muito impressionado com a mudança e, por momentos pensei que ela tinha ganho a lotaria ou coisa parecida. Perguntei-lhe se os meus conselhos tinham finalmente dado resultado. A energia, a motivação e esperança que eu tinha transmitido finalmente pareciam surtir efeito.

Ela sorriu muito divertida e respondeu-me:
-"Nada disso. Obrigado pela ajuda, mas foi o meu pai o responsável pela minha mudança."
."O teu pai? O cozinheiro?"- Eu mal podia acreditar que uma pessoa simples, sem estudos e fechado numa cozinha de um restaurante de 2ª, pudesse ser o responsável por tão grande transformação.- "Como?"
- "Ele viu-me muito abatida com tudo o que me tem acontecido e chamou-me à cozinha. Sem dizer nada colocou três tachinhos com água ao lume e num pôs uma cenoura, noutro um ovo e no terceiro umas colheres de pó de café. Eu perguntava o que ele queria, mas ele não dizia nada a não ser que esperasse um pouco. Os minutos passavam e eu estava a ficar aborrecida a cirandar de um lado para o outro enquanto ele se envolvia nos seus afazeres e os tachinhos continuavam ao lume. Passados uns bons vinte minutos chamou-me, apagou os bicos do fogão e tirou a cenoura para um pratinho, depois fez o mesmo com o ovo e colocou um pouco do café numa chávena. Então perguntou-me: "que aconteceu aqui?" Como eu não sabia o que responder ele continuou: "nas mesmas circunstâncias, que é a água a ferver, a cenoura que era firme tornou-se mole e frágil, o ovo que era frágil, tornou-se rijo e forte mas o melhor de todos é o café: ele mudou a água." Entendi que tinha de mudar a minha forma de entender as coisas, não interessa lutar contra as circunstâncias, mas mudar essas circunstâncias mudando-me a mim. Eu era como uma cenoura, fiquei fraca e débil, tu ensinaste-me a lutar contra tudo e todos e deste-me força como o ovo, mas o meu pai ensinou-me que eu posso mudar as circunstâncias mudando de atitude."

Eu fiquei boquiaberto e muito impressionado. Aprendi essa lição. Amanhã vou à festa de anos dessa minha amiga. Despediu-se do emprego, assim o patrão já não a irá despedir e, com a ajuda de dois colegas da fábrica, anunciou a todos os fornecedores e clientes da empresa que se tinha despedido. Não tardou a ser contratada por um deles com aumento de salário e de regalias. Bateram-lhe no carro ontem mesmo, mas o seguro deu-lhe outro de substituição e pagará todas as despesas. O homem que lhe bateu no carro até é vizinho e nunca se tinham encontrado antes.